Papo de Preta

Sobre minha vó e a mulher preta no brasil

8 de outubro de 2017

Tô com tanto assunto na cabeça para debater e trazer a tona através de textos, mas ando sem saúde mental pra isso. Devido a minha experiência facultativa e a tentativa de ter uma vida normal e profissional. Pois é, os vários dias sem ter uma inspiração para escrever e a falta de conteúdo nesse blog demonstram bem isso né?

Eu gosto de trazer um assunto à tona em meus textos, quando eles estão muito bem organizados, então resolvi falar de alguém que anda me dando muita saudade e que só depois que cresci vi o quanto ela era resultado das estatísticas para a mulher negra no Brasil… Minha vó.

Dona Cida, morreu por descaso médico no Hospital Antônio Giglío em Osasco, eu entrei com ela no pronto socorro e sem atenção nenhuma, o médico disse que era desidratação. As vezes que chamei as enfermeiras, ambas mexiam sem parar no celular e pediam para eu aguardar, eu conseguia ver que elas estavam no WhatsApp e tivemos que armar o maior barraco para que Dona Cida tivesse um pouco de atenção, pena que era tarde demais.  A enfermeira chefe desceu da UTI e indo olhar minha vó descobriu que ela estava tendo insuficiência respiratória e não desidratação, coisas bem diferentes né? Minha vó entrou 11 horas no hospital e morreu em volta das 18:00 horas do mesmo dia. Eu não preciso comentar o desespero que foi na nossa família.

Eu iniciei o texto sobre a dolorida morte da minha vó, para acabar  falando de quem ela era e como devemos focar em entender as causas raciais no Brasil.

Dona Cida teve cinco filhos, todos eles muito bem criados, perdeu um marido para o vício em álcool e cuidou de todos os filhos sozinha, trabalhava como faxineira e cozinheira. Passava, lavava, fazia coxinha e todo tipo de prato. O filho mais velho teve que amadurecer logo pra  ajudar a mãe. Suas filhas começaram a trabalhar cedo, tão cedo ao ponto de sofrerem todo tipo de racismo e abuso na infância. Minha mãe sempre me conta coisas que ela passou, por exemplo, os patrões sempre escondiam comida delas e uma vez, sendo babá, o filho da patroa quis montar nela para brincar de cavalo e minha mãe odiava aquilo, mas tinha que fazer com medo de ser demitida.

Elas tiveram que passar por cima de todo ódio, de todo o preconceito para ser quem são hoje. Minha vó nunca deixou de ser a provedora do lar dela, ela nunca parou de trabalhar e ainda levava os seus netos em consultas, eventos e passeios, já que ela amava fazer isso. Ela amava andar comigo porque dizia que eu parecia uma modelo e acreditou na minha curta carreira de modelo mais do que eu mesma. Ela sempre foi a base da família, ela sempre nos uniu de uma forma que eu nunca vi igual e ela era feliz porque sabia que em meio a tantos traumas, Dona Cida, mulher preta e solteira  cuidando de 5 filhos, conseguiu ver uma família sendo formada e feliz.

Agora me diga, assim como Claudia, Dona Cida merecia morrer por descaso de um governo em que um corpo negro e nada são as mesmas coisas? Uma mulher tão forte, tão batalhadora merecia ter uma morte tão descuidada? A vida da minha vó foi diminuída a minutos de conversas feitas pelo WhatsApp  porque ela não tinha convênio, ela não tinha dinheiro e nem mesmo uma pela clara. É sobre isso que você deve pensar todas as noites antes de dormir, o que você está fazendo pra ajudar a diminuir a porcentagem gritante de mulheres negras que morrem no Brasil?

Eu não consegui evitar a morte de Dona Cida, não consegui evitar a de Claudia e até quando vamos apenas dizer que não conseguimos evitar? O que a sua luta está pedindo? O que o seu grito está formando? Que sejamos mulheres que queiram trazer consciência e não apenas polêmicas.

MEU GRITO É PRA VOCÊ VÓ

Curta, Comente e Compartilhe <3

 

Você Também Pode Gostar De