Destaque, Papo de Preta

CARO AMIGO BRANCO

6 de agosto de 2020

Tenho pensado muito sobre nossa amizade e me questiono: se hoje eu fosse um corpo morto pelo racismo, o que você faria?

Você choraria por me perder e ignoraria totalmente o sistema que me matou, assim como você faz diariamente com todas as notícias que passam por aí?

Você sabe que eu sou uma pessoa negra e por mais que eu saiba que isso seja apenas um detalhe pra você, você entende qual é o peso que a minha cor trás? Se não entende porque nunca me perguntou?

Entenda que não faço esses questionamentos para pessoas brancas, faço esses questionamentos para pessoas brancas que dizem me amar

Será que você acredita que o racismo é só um problema meu? Que só eu tenho que levar a fama de ser polêmica e de debater sobre essas questões no grupo? Porque você nunca se aproximou querendo entender mais sobre isso? Isso não te importa, isso não é válido pra você?

Como você pode me ver gritando aos 4 cantos do mundo sobre minha dor e não oferecer seu apoio? Ou não se preocupar comigo, que sou sua amiga? 

Eu entendo que viver na sua zona de conforto em que eu posso até ser uma justificativa muito boa pra você dizer: Eu não sou racista, tenho até uma amiga negra.  E achar que está fazendo a sua parte amando alguém como eu, mas adivinhe só? Não é assim que funciona. 

Lutar contra o racismo é uma escolha minha e sim eu achava que isso era mais sobre mim do que sobre qualquer outra coisa, até que percebi que é sobre mim e sobre quem diz me amar.  Nossas relações são feitas de pessoas que nos compartilham força no meio de nossas dores e não solidão.

Se você não quer se posicionar contra o racismo, se você não quer entender mais sobre esse assunto, se você não vai ensinar e conversar com seus filhos para educá-los de uma maneira diferente ou se você não vai tentar entender como pode fazer parte de um mundo melhor lutando contra isso, eu não sei se devo me importar tanto assim com o que temos. 

Não tem como ser amigo de alguém silenciando a dor dele. 

Hoje eu sei que não, não tenho que passar por isso sozinha, não tenho que chorar sozinha, só tenho que buscar pessoas ao meu redor que independente da cor de pele tentem ao menos lutar comigo, que não me silencie, que não me ache extremista ou que não resuma minha dor ao ”mimimi”. 

Eu não te obrigo a me entender e nem quero te obrigar a ser anti racista, até porque isso deveria ser uma vontade natural sua. 

Mas quando você fica neutro perante minha dor, quando você fica em silêncio perante a minha luta, você já escolheu um lado e não é o meu. 

 

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