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American Son – Quem ama você?

15 de janeiro de 2020

Certa vez, estava conversando com uma pessoa não negra que além de estar querendo um encontro comigo quis antes, conversar sobre política. Eu neguei, sabia que era muito cedo para expor meu lado com alguém que estava interessado e não queria gastar minha energia. Ele insistiu e acabamos conversando, ele se exaltou e disse em um momento de fúria: – A Marielle merecia mesmo ter morrido.

Na hora eu pensei: Será que aquele cara entendia o quanto a minha imagem parecia com a Marielle? Que a minha cor e a dela é a mesma? Será que ele entendia o que uma mulher negra como Marielle representava para outra mulher negra como eu? É, obviamente que não. Me despedi da pessoa, encerrei o assunto e nem ao menos fui vê-la, não valia a pena.

No desfecho do filme ” American Son” o meu primeiro questionamento foi: Como aquela mulher se casou com aquele cara? Não por ser branco mas principalmente pela consciência racista que ele deixa claro em vários diálogos durante o filme. Tá bom, talvez ele tenha disfarçado isso com o tempo, ou ela apaixonada por um certo momento não viu essas coisas em seu parceiro, ou acreditou que poderia mudar a mentalidade dele. A questão é que naquele momento ela estava lá, sozinha, com dores e traumas que a pessoa em que ela escolheu ficar não entendia e nunca iria entender.

Aquela mulher tinha um filho e tinha total consciência do quanto era desafiador criar um filho negro, aliás, você gostaria de ter um filho sabendo que as estatísticas de vida dele seria apenas até os 33 anos? Não vou mentir que seria muito mais fácil para você mulher negra, ter um filho que não fosse negro. Por esse motivo ouvimos tanto que deveríamos “clarear” a família. (péssimo)

Entenda, não tô dizendo com qual tipo de cara você deverá criar a sua família mas sim  qual o tipo de consciência que você precisa buscar em um parceiro. É sério, não namore um racista que quer apenas te objetificar.

Outro ponto que eu vi no filme é o modo como aquela mulher estava sendo traída simplesmente por carregar uma consciência racial que seu esposo acreditava ” ser um fardo” para o relacionamento. É nítido que se ela fosse uma mulher negra silenciada, que acreditasse e vetasse todas as questões raciais que ele acreditava ser banal, o relacionamento iria fluir de outra maneira e é aí que muitas mulheres negras dentro de relacionamentos se pegam entre ser a esposa que o marido sem consciência racial quer ou ser uma mulher que tem voz.

Olha, não vai ser fácil encontrar alguém que queira você e sua bagagem racial, não vai ser fácil alguém que ao menos queira entender a sua dor sem pedir para que você sofra baixinho. Não julgo, se é cansativo para nós, imagine para alguém de fora. Por esse motivo eu repito: Não fique com alguém racista que te ache bonita mas que odeie o seu povo, que te ache gostosa mas que não quer ver seu cabelo natural, que vai ter vergonha de colocar nomes negros nos seus filhos. Que vai pedir para que você pare de acreditar em tudo pelo que luta. Pare logo no começo para que você não precise ter o tipo de dialogo que aquela mulher tem com o próprio pai do filho dela. Prefira estar sozinha do que manter relações que te deixam solitárias.

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